domingo, 25 de agosto de 2013

No dia em que nasceu

Um aglomerado de gente olha para o fim do horizonte
crendo que ali, onde a terra toca o restante do universo
seu zé descansaria o corpo curvado e ressecado.
Os passos secos na rua de terra ecoavam nos ouvidos dos vivos e dos mortos.
Range como quem grita a dor da perda o portão de ferro enferrujado.
Cochicha baixinho a brisa do verão.
A vela se desmancha, chorosa, na mão da mulher
que lidera a multidão solenemente curiosa.
Eles não veem a escuridão do dia,
apesar do sol quente que envermelha suas cabeças.
Não há pedra sobre pedra,
nem pedra sobre coisa alguma.
Há sim um silêncio pesado,
como a pressão nos pulmões de quem mergulha, de súbito, na piscina da morte.

Como pode a vida acabar-se dentro de uma caixa?

A vida é como um cachorro
que, cansado de brincar com um pedaço de osso, cava um buraco, o põe lá dentro
e tapa cuidadosamente.
Tem-se aqui um bolo de aniversário
de terra e velas que cobrem o pobre zé.
Pobre zé.
Nem sempre quem morre é porque um dia já viveu.

Eternamente fechados, seus olhos não verão o pranto dos que permanecem deste lado.
Não vêem o menino, curioso, espiando o rito
entre uma fresta generosamente aberta no murinho do cemitério.
mas se zé pudesse ver (e ouvir e pensar),
diria, como disse certa vez o músico
“como pode alguém morrer no mesmo dia em que nasceu?”

terça-feira, 16 de julho de 2013

Dez mil pés

No mais privado dos locais públicos ela permanecia sentada. Que inquietantes questões perpassavam sua cabeça, protegida por longos e negros cabelos, só era possível especular. O olhar profundamente vago causava um interesse espantoso de todos que passavam por aquele banco desconfortável.
Que impacientes receios a afligem? Pensa, enquanto se distrai com o mais simples caminhar desconhecido, nas traições da vida? Recobre-se de dúvidas à procura da sua verdade? Enrola-se no fio que enosa suas mentiras? Busca, em vão, a sua perpétua felicidade? Sabe ela que felicidade eterna não existe?
É o sentido da vida que lhe rouba a tranquilidade, moça dos olhos castanhos? Por que não relaxas enquanto o tempo passa como tem que passar? É a espera que te atordoa e soca o estômago? Ou é o tempo passar que te revolta, põe fim a paciência que um dia te preencheu por completo? A vida não para. Tu bem sabes disso. Nós sabemos. Mas o que te faz dar passos apressados, perdidos de um lado para o outro, isso não sei. Nem tu sabes.
Sei que, uma hora dessas, precisarás se acalmar. Por que gente que corre demais um dia tropeça nas próprias pernas. E nesse momento, se precisares de mim, já estarei a dez mil pés de altura, engolindo refrigerantes sem gás e mastigando petiscos os quais não gostaria de comer. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Vozes Estrangeiras

Ouço sussurros de vozes irreconhecíveis
Vindos da sala ao lado
Num idioma que não fala minha língua

O que dizem essas vozes?

Sentam-se no bar
Pedem uma cerveja
E discutem política?
São casais que suspiram e
Se derramam num mar de amores impossíveis?
Marcham pelas ruas, com cartazes e faixas
Bradando uma revolução?
Dançam cirandas sorridentes
Sob o olhar atento de seus pais?
Cospem xingamentos
Numa discussão sem fundamentos?

Ou são apenas sussurros
De vozes da sala ao lado
Os quais não ouso compreender?

domingo, 7 de julho de 2013

Prece

Deus, se estás aí em cima
Vigiando o céu e a terra
Afasta desse homem a inocência.
Por que a inocência, meu Deus
É o pior defeito do homem.

sábado, 6 de julho de 2013

Do que adianta dizer-se poeta?

Do que adianta dizer-se poeta
E nem saber poetizar?
Poesia é palavra solta no ar
voando com o vento.
Do que adianta dizer-se poeta
Se palavra o vento não diz
E o que digo não é poesia?
Do que adianta dizer-se poeta
Se a vida compreende entendimento
Que dia algum julgarei entender?
É, do que adianta dizer-se poeta
Se escrevendo essa poesia
Encho a folha de letras e não sinto a mente vazia?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

De verso ao verso

Estes versos meus tão puros se confundem com os teus tão belos.
São tão teus estes meus.
São tão meus estes teus.

Ainda assim, por mais que escreva, nunca sou você.
E nem você me é.
Mas somos.
Dois que são.
São poesia e prosa, corpo e alma, mente e coração.
Corpo e alma se confundem.
Mente e coração mentem um para o outro.

Mas todos eles sentem
Sentem que meu verso é teu, seu verso é meu.
E mesmo o nosso verso sabe:
cada verso que escrevo, foi escrito antes em ti.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A máquina que objetiva a verdade

Um homem de meia idade, congelado num tempo/espaço não reconhecidos por ele, fazendo chifres com a mão, símbolo do gênero duro que hoje já não é tão duro assim, mas que conversa com o anjo caído do céu, sorri etilicamente para um alguém que não se sabe quem.
A micro tela não sabe das rezas que ele faz à Deus e ao Diabo todas as noites antes de dormir. Xinga o capeta, pede ajuda ao criador. E vice-versa. Não sabe do flerte dele com a morte, após sorver os copos de vinho, sujos, e sair para brincar de ser piloto inexperiente de corrida automobilística. Ah, se essa imagem soubesse das brigas dele com seus irmãos, do pensamento bipolar que vagueia entre os campos cobertos de sangue, carcaças e espadas, e a floresta de brisa fresca e tempo quente.
Por acaso sabe essa fotografia do que realmente é feito esse homem? Sabe da realidade dele? Esses olhos que brilham ebriamente nesse papel recém-pintado nessa impressão bem feita, conhecem a tristeza amarga do que ele é? Não, ela não sabe das viagens dele pelo país, da quantia de latas de cerveja clara e barata que bebeu, dos socos e pontapés que levou e serviu, como um garçom mal humorado. 
Do alto de sua empáfia e soberba, acredita, câmera fotográfica, que reflete a realidade. Não imagina, oh máquina que objetiva a verdade, que a vida não é objetiva. Ela é relativa; navega em águas rasas e profundas da mesma maneira, nos convida pra dançar uma valsa e depois inventa um ritmo novo, só pra ver se a gente aprende o passo ou tropeça e cai. E se cai, ela ri. E, ou a gente ri junto, ou fica no chão e chora. 
A realidade troca de lente e nos fotografa. Muda o foco e fotografa. Dá zoom e fotografa. A câmera faz o mesmo, aluna bem aplicada, dessas que sentam na frente da sala e sempre levanta a mão quando o professor faz uma pergunta. Mas, não importa o que ela mude, a verdade nunca ficará estampada na sua telinha digital.