terça-feira, 11 de junho de 2013

A máquina que objetiva a verdade

Um homem de meia idade, congelado num tempo/espaço não reconhecidos por ele, fazendo chifres com a mão, símbolo do gênero duro que hoje já não é tão duro assim, mas que conversa com o anjo caído do céu, sorri etilicamente para um alguém que não se sabe quem.
A micro tela não sabe das rezas que ele faz à Deus e ao Diabo todas as noites antes de dormir. Xinga o capeta, pede ajuda ao criador. E vice-versa. Não sabe do flerte dele com a morte, após sorver os copos de vinho, sujos, e sair para brincar de ser piloto inexperiente de corrida automobilística. Ah, se essa imagem soubesse das brigas dele com seus irmãos, do pensamento bipolar que vagueia entre os campos cobertos de sangue, carcaças e espadas, e a floresta de brisa fresca e tempo quente.
Por acaso sabe essa fotografia do que realmente é feito esse homem? Sabe da realidade dele? Esses olhos que brilham ebriamente nesse papel recém-pintado nessa impressão bem feita, conhecem a tristeza amarga do que ele é? Não, ela não sabe das viagens dele pelo país, da quantia de latas de cerveja clara e barata que bebeu, dos socos e pontapés que levou e serviu, como um garçom mal humorado. 
Do alto de sua empáfia e soberba, acredita, câmera fotográfica, que reflete a realidade. Não imagina, oh máquina que objetiva a verdade, que a vida não é objetiva. Ela é relativa; navega em águas rasas e profundas da mesma maneira, nos convida pra dançar uma valsa e depois inventa um ritmo novo, só pra ver se a gente aprende o passo ou tropeça e cai. E se cai, ela ri. E, ou a gente ri junto, ou fica no chão e chora. 
A realidade troca de lente e nos fotografa. Muda o foco e fotografa. Dá zoom e fotografa. A câmera faz o mesmo, aluna bem aplicada, dessas que sentam na frente da sala e sempre levanta a mão quando o professor faz uma pergunta. Mas, não importa o que ela mude, a verdade nunca ficará estampada na sua telinha digital.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Rua sem saída


Perdi as chaves do apartamento.
E também a sobriedade.
Os livros que não me contaram suas histórias e pensamentos
Perderam-se.
As horas já não sabem o caminho de volta.

A rua que eu subia
virou a direita e parou na parede que dizia
Sem saída.
E eu não recomendaria a entrada.

Quanta comida desperdiçada
Aglomera moscas e ratos em torno do latão de lixo
Quanta vida desperdiçada
Aglomera lamentações e revolta pela falta de capricho

Quanta porta não aberta, falta até a ebriedade.
Quanto livro não aberto, sobra até ansiedade.
Quanta rua sem saída.
E eu não recomendaria a entrada.

sábado, 18 de maio de 2013

Tacitamente acordados

Acorda comigo: de hoje em diante, somos um do outro, sem se pertencer totalmente.
Esse corpo nu colado ao meu, é meu. Porque quero. Porque queres. Porque amas, talvez. Mas os pelos da tua nuca só se arrepiarão enquanto eu merecer que eles os façam. Só recebo teu beijo carinhoso enquanto achares que me esforço pra ganhar esse prêmio. Tu só vencerás a corrida para roubar-me o fôlego se correres com vontade.
Pois por mais que nos quisermos, por mais que nos amemos, toda relação é um jogo de poder no qual os dois podem tudo, menos ter poder demais. Ambos precisam se esforçar por um poder que não pode ser seu. Tem que ser nosso.
Caso contrário, perde-se o encanto, a surpresa, a sensação de “poderei perder a qualquer momento”. E é disso que nós gostamos. Da certeza duvidosa.
Nós sabemos disso. Nós queremos isso. Afinal, nesse sonho que é viver a dois, nós estamos tacitamente acordados.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Maré Cheia

Desacelera um pouco esse passo. Chegar atrasada não é problema algum. A espera faz parte da vida.
Pede um copo de calma. Dou-te um cheio. A pressa é inimiga da alma. Segura minha mão e caminha comigo lentamente. É devagar que se cativa o corpo e a mente.
Não te preocupes com os pensamentos, com as visões dessa bola de cristal enevoada que as vezes a vida quer nos dar. Relaxa. Deixa-te ser levada por esse vento que acaricia os nossos rostos.
Lembra-te do mar, que tanto gostas de ouvir. Ele vai, mas sempre volta.
E, quem sabe numa dessas voltas, quando a maré estiver cheia (de) a sorte nos volte a sorrir.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cantarolando

Ouve esse encanto que te canto baixinho:
Minha voz sempre forte e afinada
Falha e desafina
Ao te ver sorrir

domingo, 12 de maio de 2013

Tango

Dois pares de pés se arrastam de um lado para o outro
Batem-se. Digladiam-se. Pisam-se.
Quão desastrados são eles
Não sabem onde se colocar
Não acompanham o ritmo da música inaudível
Não foram feitos para a dança.

A areia branca da praia sofre com seus maus-tratos.
Mas os sorrisos são fáceis.
Os olhos brilham como estrelas que desceram para ver o mar mais de perto
Por que eles não foram feitos para a dança
Mas a dança da vida,
Seja tango ou seja valsa
Eles sabiam como dançar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Um final bem mais feliz

A brisa amena toca meu rosto devastado pelo tempo. Meus olhos ressecados fitam o céu que começa a ficar nublado ao poucos. O chão áspero castiga meus pequenos chinelos de dedo sob meus pés. Ah, pés, por onde já não estivestes? Por quais sonhos já não passeastes? Por quantas nuvens do céu não tocastes enquanto voava perdida num mundo só meu?

Estes são sonhos de criança. Criança esta que já não sou.

Meus pés agora estão fixos em todo esse mar de concreto. Tão fixos quanto meus olhos, que agora procuram uma silhueta que me indique a chegada dele. Ele, aquele que um dia tirou estes mesmos pés e olhos da órbita natural desse planeta.

O Sol no horizonte se deita. E por que eu não me deito também? Por que não caio de vez na cama do fim da vida? O descanso com certeza seria o melhor de todos os que tive até hoje. Ainda assim, continuo imóvel, balançada levemente apenas pela sinfonia da respiração. Entra ar. Sai ar. Entra ar. Sai ar. Só não entra de novo aquilo que já quis ser. Só não sai aquilo que entrou, ficou, e que até este momento fez seu aconchego em mim.

No fim da rua, de súbito, uma sombra vai tomando forma. Caminha em minha direção. É ele, de novo. Como em todos os dias desses últimos 40 anos. Mas, e se não fosse ele? E se desta vez fosse aquele jovem rapaz de sorrisos fáceis e mão afetuosa? E se fosse aquele homem de cabelos claros, olhos vibrantes? Ah, e se fosse o rapaz de boa aparência, de cheiro inebriante e pele macia? Não. É ele. De novo ele.

Onde foi que me perdi, para que chegasse a tal ponto? O rosto que vejo agora não é mais o mesmo. Não pela passagem de tempo, isso vem pra todos nós. Eu mesma já não tenho mais o brilho dos olhos. Nem a pele lisinha. Muito menos os cabelos fortes e bonitos. Contudo, a mudança nele é outra. A dureza dos seus traços me dão calafrios. O filme esculpido dentro da minha cabeça é muito claro. Aquele punho se fechando e aquele tom de voz agressivo nunca serão esquecidos. E ainda assim, aqui estou. Travada como um prego fincado na madeira por um martelo pesado. Não saí do lugar.

Me pergunto o porquê. Talvez o receio da obscuridade eterna me acorrente. Talvez esse meu filho, que há pouco passou apressado por mim de mochila nas costas, me faça ficar. Talvez o vislumbre de uma vingança, que nunca veio, sussurre ao meu ouvido para esperar. Seja qual for o motivo, aqui estou. De frente à porta dessa casa construída com tanto esforço. Vendo o rosto daquele homem se aproximar sem nem mencionar um sorriso. Ouvindo aquele “oi” mal humorado, enquanto a chaleira começa a apitar lá na cozinha.

O café fica pronto. O jantar, depois, também. E eu, deitada nessa cama onde dois solteiros formam, por nome, um casal, revisito todos aqueles rostos que me sorriam. Eu aqui, solitariamente casada, sinto saudade de todas as vezes que saí de casa com os amigos. De todas as vezes que namorei aqueles rapazes e homens. E de como eram diferentes e divertidos.

Namoro em pensamento cada um deles, novamente. Mesmo que eu saiba, prestes a adormecer, que tenha me casado com meu primeiro e único namorado. Ainda assim, sinto saudade de todos os meus namorados. De todos e de cada um. Por que algum, quem sabe, me daria um final bem mais feliz.