domingo, 7 de julho de 2013

Prece

Deus, se estás aí em cima
Vigiando o céu e a terra
Afasta desse homem a inocência.
Por que a inocência, meu Deus
É o pior defeito do homem.

sábado, 6 de julho de 2013

Do que adianta dizer-se poeta?

Do que adianta dizer-se poeta
E nem saber poetizar?
Poesia é palavra solta no ar
voando com o vento.
Do que adianta dizer-se poeta
Se palavra o vento não diz
E o que digo não é poesia?
Do que adianta dizer-se poeta
Se a vida compreende entendimento
Que dia algum julgarei entender?
É, do que adianta dizer-se poeta
Se escrevendo essa poesia
Encho a folha de letras e não sinto a mente vazia?

quinta-feira, 27 de junho de 2013

De verso ao verso

Estes versos meus tão puros se confundem com os teus tão belos.
São tão teus estes meus.
São tão meus estes teus.

Ainda assim, por mais que escreva, nunca sou você.
E nem você me é.
Mas somos.
Dois que são.
São poesia e prosa, corpo e alma, mente e coração.
Corpo e alma se confundem.
Mente e coração mentem um para o outro.

Mas todos eles sentem
Sentem que meu verso é teu, seu verso é meu.
E mesmo o nosso verso sabe:
cada verso que escrevo, foi escrito antes em ti.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A máquina que objetiva a verdade

Um homem de meia idade, congelado num tempo/espaço não reconhecidos por ele, fazendo chifres com a mão, símbolo do gênero duro que hoje já não é tão duro assim, mas que conversa com o anjo caído do céu, sorri etilicamente para um alguém que não se sabe quem.
A micro tela não sabe das rezas que ele faz à Deus e ao Diabo todas as noites antes de dormir. Xinga o capeta, pede ajuda ao criador. E vice-versa. Não sabe do flerte dele com a morte, após sorver os copos de vinho, sujos, e sair para brincar de ser piloto inexperiente de corrida automobilística. Ah, se essa imagem soubesse das brigas dele com seus irmãos, do pensamento bipolar que vagueia entre os campos cobertos de sangue, carcaças e espadas, e a floresta de brisa fresca e tempo quente.
Por acaso sabe essa fotografia do que realmente é feito esse homem? Sabe da realidade dele? Esses olhos que brilham ebriamente nesse papel recém-pintado nessa impressão bem feita, conhecem a tristeza amarga do que ele é? Não, ela não sabe das viagens dele pelo país, da quantia de latas de cerveja clara e barata que bebeu, dos socos e pontapés que levou e serviu, como um garçom mal humorado. 
Do alto de sua empáfia e soberba, acredita, câmera fotográfica, que reflete a realidade. Não imagina, oh máquina que objetiva a verdade, que a vida não é objetiva. Ela é relativa; navega em águas rasas e profundas da mesma maneira, nos convida pra dançar uma valsa e depois inventa um ritmo novo, só pra ver se a gente aprende o passo ou tropeça e cai. E se cai, ela ri. E, ou a gente ri junto, ou fica no chão e chora. 
A realidade troca de lente e nos fotografa. Muda o foco e fotografa. Dá zoom e fotografa. A câmera faz o mesmo, aluna bem aplicada, dessas que sentam na frente da sala e sempre levanta a mão quando o professor faz uma pergunta. Mas, não importa o que ela mude, a verdade nunca ficará estampada na sua telinha digital.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Rua sem saída


Perdi as chaves do apartamento.
E também a sobriedade.
Os livros que não me contaram suas histórias e pensamentos
Perderam-se.
As horas já não sabem o caminho de volta.

A rua que eu subia
virou a direita e parou na parede que dizia
Sem saída.
E eu não recomendaria a entrada.

Quanta comida desperdiçada
Aglomera moscas e ratos em torno do latão de lixo
Quanta vida desperdiçada
Aglomera lamentações e revolta pela falta de capricho

Quanta porta não aberta, falta até a ebriedade.
Quanto livro não aberto, sobra até ansiedade.
Quanta rua sem saída.
E eu não recomendaria a entrada.

sábado, 18 de maio de 2013

Tacitamente acordados

Acorda comigo: de hoje em diante, somos um do outro, sem se pertencer totalmente.
Esse corpo nu colado ao meu, é meu. Porque quero. Porque queres. Porque amas, talvez. Mas os pelos da tua nuca só se arrepiarão enquanto eu merecer que eles os façam. Só recebo teu beijo carinhoso enquanto achares que me esforço pra ganhar esse prêmio. Tu só vencerás a corrida para roubar-me o fôlego se correres com vontade.
Pois por mais que nos quisermos, por mais que nos amemos, toda relação é um jogo de poder no qual os dois podem tudo, menos ter poder demais. Ambos precisam se esforçar por um poder que não pode ser seu. Tem que ser nosso.
Caso contrário, perde-se o encanto, a surpresa, a sensação de “poderei perder a qualquer momento”. E é disso que nós gostamos. Da certeza duvidosa.
Nós sabemos disso. Nós queremos isso. Afinal, nesse sonho que é viver a dois, nós estamos tacitamente acordados.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Maré Cheia

Desacelera um pouco esse passo. Chegar atrasada não é problema algum. A espera faz parte da vida.
Pede um copo de calma. Dou-te um cheio. A pressa é inimiga da alma. Segura minha mão e caminha comigo lentamente. É devagar que se cativa o corpo e a mente.
Não te preocupes com os pensamentos, com as visões dessa bola de cristal enevoada que as vezes a vida quer nos dar. Relaxa. Deixa-te ser levada por esse vento que acaricia os nossos rostos.
Lembra-te do mar, que tanto gostas de ouvir. Ele vai, mas sempre volta.
E, quem sabe numa dessas voltas, quando a maré estiver cheia (de) a sorte nos volte a sorrir.