domingo, 24 de março de 2013

Da janela do meu quarto


Da janela do meu quarto eu vejo passarem as árvores. O Sol se esconde atrás de um mar de nuvens com expressões arredias. Da janela do meu quarto vejo carros passando em alta velocidade na direção oposta. E no reflexo do vidro vejo um rosto de olhar distante, que olha a janela do próprio quarto. Uma janela que mostra a própria vida em si. Um quarto móvel, que sobe e desce por estradas que cortam cidades. 
E cada curva dessa estrada traz de volta essa revolta de ter que crer que essa água turva que é o ser, nos faz ser quem a gente realmente é.

domingo, 17 de março de 2013

Sobre o que faz a vida ser o que é

Me pergunto sobre a vida, seus significados. O que é a vida se não nossas memórias? Me dirão que é o que fazemos. É verdade. O que fazemos faz a vida. O que fazemos cria as memórias. 
Me dirão que é o que não fazemos. Também é verdade. O que não fazemos fica no nosso inconsciente. Nos trás o remorso de não ter feito. De não ter memórias diferentes. 
Mas a vida vive de memórias nem sempre concretas. Uma memória do que você sentiu não é tão concreta. Ainda assim você se lembra. E lembra também do que não sentiu. Do que não viveu. E passa a se perguntar até que ponto você soube viver. Até que ponto eu soube viver? Até que ponto soube criar memórias? 
Longe do que deveria ser, vivi pouco. Tenho menos memórias do que queria e do que deveria. A vida passa, se encaminha e vejo ela passar de frente aos meus olhos sem realmente conseguir enxergá-la. É quase um vidro embaçado pela umidade. E por mais que passe a mão tentando melhorar a visibilidade, depois de um tempo, ele fica embaçado e não vejo como deveria.
A vida se faz de momentos. Momentos que são memórias. Memórias que perdi, aos montes. Montes de oportunidades que não mais voltarão e que se refletem na reflexão, na auto-crítica.
E mesmo tão cedo, olho pro vidro e é quase impossível ver o outro lado. Me pergunto: "Em vinte e um anos, o que foi que eu vivi? O que foi que eu perdi? Que vida vive na minha, que não a que eu desejava viver? A que eu deveria viver?". Até que uma voz responde, com uma toalha na mão, desembaçando o vidro, que se mostra ser um espelho, diz: "Crie momentos novos, vidas novas. E por tudo de mais sagrado nessa vida, não perca mais memórias, seu desgraçado. Por nada".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Maturidade Seletiva

De onde vem essa maturidade seletiva inconsciente? Por quê lidamos bem com os problemas "comuns" da vida, mas agimos feito crianças em outros momentos?
Pra tanto a gente faz tanto e por pouco a gente se faz tão pouco. Se faz pequeno e frágil, como não devia, como não poderia ser.
Mas, as vezes, quando se fala de sentir e não de fazer, a fragilidade da alma aparece e voltamos a adolescência. Aquela fase em que tudo é drama. Tudo é dor. Nada se encaixa.
E a gente se pergunta: "será que eu ainda quero viver essa adolescência inconsciente?". Então começa a pensar que essa fragilidade do ser não pode mais ser. Tem que ir. Ir fazer as malas e só voltar com a bagagem cheia de experiências.
Chega dessa maturidade seletiva.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Segue

Aquelas ruas que me habituei a conhecer já não mais me acolhem da forma como faziam antes. Ainda assim eu sigo caminhando, com os pés arrastando no chão e uma cara meio emburrada.
Ao meu lado os carros seguem, as pessoas seguem. Seguem pra um lugar que desconheço, mas seguem. O vento segue, de um lado pro outro, de cima pra baixo. Mas segue.
A vida parece gritar “SEGUE!”. E quando vou gritar de volta, o nó na garganta trava a fala. Quanto mais tento desatar, mais aperta. Então, pra evitar sufocar, viro as costas, respiro fundo e faço a única coisa que me parece possível: tento seguir.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Prefiro você com a luz acessa

Eu prefiro o sussurro ao pé do ouvido, um bom dia ao acordar. Prefiro você de pijama. Não que eu não goste quando você coloca um vestido e usa maquiagem. Também prefiro você assim. Prefiro deitar no sofá e ver um filme qualquer, contigo deitada no meu colo, comendo besteiras. Prefiro você sorrindo o sorriso que só você sabe dar. Prefiro você sendo sincera. Prefiro você com a luz acesa, assim, sem vergonha. Por que estou contigo, o que significa que quero estar contigo. Prefiro você a vontade. 
Prefiro você de qualquer jeito. Rindo, chorando, sussurrando, gritando, pedindo, mandando, conversando ou em silêncio, nua ou vestida.
Prefiro você de qualquer jeito. Desde que seja você.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A última manhã

Bip. Bip.
Numa cama de hospital, um homem abria os olhos lentamente. Seu corpo doía. Seus olhos estavam cansados, rodeados de rugas que se acentuavam com o tempo. Os cabelos já rareavam bastante e eram esbranquiçados. Uma expressão cansada e sofrida havia se apossado daquele rosto outrora tão sorridente e bem humorado.

Bip. Bip.
Um aparelho, a meio metro acima de sua cabeça, mostrava números. Números que não se repetiam. 128. E mudaram. 109. 96. 117. Um gráfico os acompanhava, numa montanha russa. Sempre seguido de um Bip.
Agulhas furavam seu braço, seguidas de tubos pelos quais medicamentos eram injetados. Sentia-se agoniado. Queria levantar, voltar a ver o Sol. Queria poder abraçar sua mulher, de novo. E seus filhos. E os netos. Queria voltar a correr. Principalmente atrás daquela bola, de couro, pesada, que rolava estranhamente pelos campos verdes do interior de São Paulo. Queria voltar a marcar um gol. Ah, como era incrível aquela sensação.

Porém, agora, só conseguia ver as pessoas que amava. Mal conseguia falar sem ficar fraco, sem ar. E o futebol? Naquela sala de cheiro ruim e azedo, só conseguia pensar sobre aquele clube rubronegro. Jogar? Só nas lembranças de 40, 50 anos atrás.
Noite passada recebera visitas, como de costume. Ninguém havia se demorado muito. Talvez por medo de sofrerem ainda mais, pensava o homem. "É melhor assim. Não quero que sintam pena."
Ouviu muitos "Eu te amo". Pensou que deveria ter demonstrado mais, enquanto tinha condições. E quando sua mulher e seus filhos foram embora, deixou que uma lágrima rolasse. Não queria que eles o vissem ainda mais vulnerável.
Mas naquela manhã, acordara mais forte. Não fisicamente. Seus braços e pernas doíam. Respirava pesadamente. O coração já batia fraco. Entretanto, sentia que estava "bem". 
"Acho que é a hora" pensou ele.
Bip. Bip.
Uma enfermeira passou no corredor fazendo barulho ao caminhar apressadamente.
Bip...Bip...Bip...
"Afinal, a droga do meu medo acabou por se concretizar. Vim para o Hospital, a contragosto. E cá estou eu. Indo embora dele"
Riu um riso fraco. 
Bip... Bip...
Sorriu.
"Tudo bem, já tô indo"
E o gráfico que subia e descia, foi parando. E o número que trocava, foi caindo. No aparelho, foi visto uma linha. 
Os olhos se renderam ao cansaço.
Biiiiiiiiiiiip.

Vários telefones tocaram naquela manhã. Muitas lágrimas foram derramadas. Muitas bem perto.
Mas há 2 mil quilômetros de distância, um celular tocou, um rapaz acordou e atendeu.
"Alô?" uma voz embriagada de sono soou para o outro lado.

"Oi filho. Tenho uma notícia pra te dar"
E o coração dele já sabia. 
Então juntou-se ao mar de lágrimas. E chorou.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Trago nas costas...

Trago na mochila alguns bons livros de experiência vivida, outros tantos de bobagens feitas e um bem pequeno de momentos marcantes. E apesar de todo o peso que tem, fazendo as costas se curvarem, alguma coisa falta. Algum livro que perdi no caminho, talvez. Aquele que, em falta, dói mais do que a dor nas costas que ajudava a causar.